São Mateus: A Conversão Radical, o Evangelho da Realeza e o Legado do Cobrador de Impostos

A figura de São Mateus, o Apóstolo e Evangelista, oferece um dos mais poderosos testemunhos de conversão e inclusão radical no Novo Testamento. Conhecido originalmente como Levi, sua vida foi a prova viva de que a graça de Cristo alcança os marginalizados, os pecadores e aqueles considerados irrecuperáveis pela sociedade de sua época. A transição de um detestado cobrador de impostos (publicano) a um dos doze pilares da Igreja e o autor do primeiro Evangelho canônico sublinha a mensagem central de Jesus: a Misericórdia prevalece sobre o julgamento e a lei.

Este artigo é uma exploração completa da vida de São Mateus, detalhando o contexto de sua profissão e a profundidade de sua exclusão social, a dramaticidade de seu chamado, a estrutura teológica de sua Carta da Bíblia (o Evangelho) e o impacto inestimável de sua missão apostólica como o elo crucial entre a profecia e o cumprimento.

O Contexto da Galileia e a Profissão Desprezada

Antes de se tornar Apóstolo, Mateus era conhecido como Levi, filho de Alfeu. Ele vivia e trabalhava em Cafarnaum, na Galileia, uma região que não era apenas um centro de intensa atividade comercial, mas um ponto estratégico para o controle fiscal do Império Romano. Mateus estava posicionado exatamente na fronteira, cobrando impostos sobre mercadorias e transeuntes.

A Profissão de Publicano: Traição e Exploração Econômica

A profissão de cobrador de impostos (publicanus) era uma das mais odiadas na sociedade judaica. A hostilidade era profunda e multifacetada:

  1. Associação com o Invasor: Os publicanos eram vistos como colaboradores do opressor romano, trabalhando ativamente para manter a subjugação de Israel. Isso era, na prática, um ato de traição política e religiosa.

  2. Corrupção Institucionalizada: O sistema permitia a corrupção; os publicanos eram responsáveis por licitar o direito de cobrar impostos e, para garantir o lucro, lhes era permitido cobrar uma margem considerável além do imposto exigido por Roma. Eles frequentemente enriqueciam através da extorsão e exploração do próprio povo.

  3. Exclusão Religiosa e Social: Por estarem constantemente em contato com gentios e dinheiro “sujo”, os publicanos eram considerados cerimonialmente impuros e pecadores públicos. Eram segregados da participação plena na sinagoga e evitados pelos judeus devotos.

A vida de Mateus era, portanto, de isolamento, riqueza material e desprezo universal. Ele estava firmemente enraizado no mundo da transação e do materialismo, o oposto de qualquer modelo de santidade ou pertencimento social.

O Chamado Radical: ‘Segue-me’ e a Conversão Imediata

O chamado de Mateus é um dos mais contrastantes dos Evangelhos, pois Jesus deliberadamente escolheu alguém que a sociedade considerava além da redenção.

Passagem Bíblica (Mateus 9:9 – NVI):

“Saindo, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e lhe disse: ‘Siga-me.’ Mateus se levantou e o seguiu.”

A Resposta e a Renúncia Incalculável

A simplicidade do relato (“levantou e seguiu”) esconde a magnitude do sacrifício e a força da conversão. Ao aceitar o chamado, Mateus abandonou instantaneamente uma profissão lucrativa e segura, desfazendo-se de seu status social (embora negativo) e de sua estabilidade financeira em favor de uma vida de pobreza e incerteza como discípulo itinerante. A sua obediência foi radical e inegável.

Em resposta a essa graça, Mateus demonstrou seu profundo agradecimento e alegria ao oferecer um grande banquete em sua casa para Jesus e Seus discípulos, convidando também seus colegas publicanos e outros “pecadores” (Lucas 5:29). Este ato foi a sua primeira obra de misericórdia como novo discípulo: uma tentativa de introduzir seus antigos companheiros na presença do Mestre.

  • O Confronto com os Fariseus: O banquete provocou a imediata crítica dos fariseus, que questionaram Jesus por comer com publicanos e pecadores. A resposta de Jesus resume a vocação de São Mateus e o propósito de Sua missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.” (Lucas 5:31-32).

O novo nome, Mateus (Matthaios), que significa “Dádiva de Deus”, selou sua transformação de um traidor fiscal para um presente e uma bênção para a humanidade.

O Evangelho de Mateus: A Ponte entre Duas Alianças e a Prova Messianica

A principal contribuição de São Mateus à Bíblia é o Evangelho que leva seu nome. Sua formação como coletor de impostos — alguém que lidava com a organização de registros e escrituras — é evidente na estrutura meticulosa e didática de seu Evangelho. Mateus é o evangelista que atua como a ponte intelectual e teológica entre a Antiga e a Nova Aliança.

O Propósito e a Audiência-Alvo

Mateus escreveu seu Evangelho primariamente para um público judeu. Sua intenção era provar, com argumentos enraizados nas próprias Escrituras Hebraicas, que Jesus era o Messias esperado.

  • Foco no Cumprimento Profético: O Evangelho de Mateus é estruturado em torno da frase recorrente: “Isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por meio do profeta…” Ele faz mais de 60 referências ao Antigo Testamento, demonstrando que a vida, os atos e a morte de Jesus eram a realização exata e predita da profecia messiânica. Isso forneceu aos judeus convertidos o fundamento para sua nova .

Características Estruturais e Teológicas

A organização de Mateus é altamente significativa:

  1. Genealogia e Realeza: Mateus inicia seu relato com a genealogia de Jesus, traçando Sua linhagem até Abraão e Davi. Este detalhe era essencial para o público judeu, pois estabelecia a realeza de Jesus e Seu direito ao trono de Israel.

  2. Os Cinco Grandes Discursos (O Novo Moisés): Seu Evangelho é notoriamente organizado em cinco grandes blocos de ensinamentos de Jesus (como o Sermão da Montanha), ecoando os cinco livros da Lei (Pentateuco). Isso posiciona Jesus como o “Novo Moisés”, que não veio abolir a Lei, mas sim aperfeiçoá-la e dar-lhe o seu significado pleno.

  3. Ênfase no Reino dos Céus: A expressão “Reino dos Céus” (uma forma de evitar o uso direto do nome de Deus, comum entre os judeus) aparece cerca de 32 vezes em seu Evangelho, mais do que em qualquer outro, focando na natureza e nas regras do governo de Deus na Terra.

As Passagens Mais Impactantes na Obra de Mateus

A Carta da Bíblia escrita por São Mateus nos legou algumas das mais preciosas e transformadoras passagens bíblicas que definem a ética e a missão cristã.

O Sermão da Montanha e as Bem-Aventuranças (Mateus 5-7)

Esta é, talvez, a porção mais famosa de seu Evangelho. As Bem-Aventuranças (Mateus 5:3-12) são a Constituição do Reino, redefinindo os valores de sucesso e felicidade: a bênção é dada à humildade, à mansidão, à misericórdia e aos pacificadores. O restante do Sermão detalha a ética radical do Reino, contrastando-a com a lei antiga (“Ouvistes que foi dito… Eu, porém, vos digo…”).

A Oração do Pai Nosso (Mateus 6:9-13)

Mateus registra a oração modelo ensinada por Jesus, fornecendo aos Seus seguidores uma fórmula concisa de adoração, súplica e, crucialmente, perdão (“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”). Este era um tema de intensa relevância para os publicanos e os endividados de sua época.

A Grande Comissão (Mateus 28:19-20)

O Evangelho de Mateus não termina com a Ressurreição; ele se encerra com o comando missionário final de Jesus, o mandato global que estabelece o propósito da Igreja:

Passagem Bíblica (Mateus 28:19-20):

“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.”

O Apóstolo Mateus na Igreja Primitiva e Sua Missão

Após o Pentecostes, Mateus permaneceu em Jerusalém com os outros Apóstolos, testemunhando a fundação da Igreja Primitiva e a expansão inicial do Evangelho (Atos 1:13). Seu histórico de organização e contabilidade pode ter sido de grande utilidade para o gerenciamento dos bens e recursos da comunidade cristã primitiva, que vivia em comunhão e partilhava seus bens.

A Missão no Oriente e o Sacrifício Final

Uma vez estabelecida a Igreja em Jerusalém, São Mateus seguiu a ordem da Grande Comissão, levando a mensagem de Cristo a territórios distantes.

  • Destino Missionário: A tradição da Igreja afirma que ele levou o Evangelho para a Pérsia, a Partia e, mais notavelmente, a Etiópia (ou a região de Média, dependendo da fonte). Seu trabalho missionário concentrou-se em pregar aos não-judeus (gentios), estabelecendo comunidades e solidificando o Evangelho em regiões onde a Palavra de Cristo era desconhecida.

  • O Martírio: A tradição mais amplamente aceita afirma que São Mateus selou seu testemunho com o Martírio, sendo morto por uma alabarda ou machado na Etiópia (ou na região de Nadaba), por volta do ano 60 d.C., após confrontar um rei local sobre sua moralidade e fé.

O Martírio de Mateus em seu posto missionário é o contraste final com sua vida anterior: o homem que valorizava o dinheiro abandonou tudo e deu a própria vida, provando a autenticidade de sua conversão e a profundidade de seu compromisso com o Evangelho que ele havia meticulosamente documentado.

São Mateus é celebrado em 21 de Setembro e seu símbolo na arte cristã é um anjo ou um homem alado, representando a natureza humana de Cristo (a primeira coisa que ele documenta em sua genealogia) e o caráter inspirador de seu Evangelho. Seu legado é o da obediência radical e o do gênio organizacional a serviço da , provando que a Misericórdia divina pode transformar um traidor em um pilar da verdade.

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